Conversando sobre o amor


A gente pensa que as pessoas com menos condições não sabem direito o que é o amor. Mas hoje eu percebi que até mesmo esses, sabem muito bem como esse tal de amor funciona.
        Faz um tempo, que ajudo uma senhora, chamada Iara, ela me conquistou com o jeito meigo e querido de pedir, a primeira vez que a conheci ela se apresentou no interfone ‘oi, amiga aqui é a Iara, tu tem algo para me dar?’
        Como todo mundo faz, eu disse que não tinha nada, porque a gente é bem assim, quando vem alguém bater a nossa porta e pedir algo, mesmo tendo, algo nos leva a não ajudar. Só que a frase depois do meu não, aqueceu meu coração ‘tá bom, não tem problema, obrigada’.
        Não estamos acostumados com isso também. A maioria daqueles que é pedincho xinga aqueles que não querem ajudar. Essa me impressionou pela educação, mesmo sem eu querer ajudar. Depois de um mês ela voltou a bater na minha porta, e resolvi dessa vez ajudar a ‘amiga Iara’.
        Impressionante, a gente se apega aquela mulher, sem perceber, faz anos que ela bate na minha porta, e que ajudo ela sempre, isso faz tão bem a minha alma, e pra dela também. Sei que ela tem gêmeos, que usa minhas pantufas antigas ainda, que dei num inverno passado. Ela sabe da separação dos meus pais, sabe da mudança de empregada na minha casa, e até conhece o meu namorado, me pergunta dele, e de todo o resto da minha família.
        Manda beijos para minha pessoa, quando não estou em casa, e manda beijos para todos que moram aqui, quando eu atendo ela, entende quando não quero sair ali e doar algo, e sabe que quando prometo doar algo, eu realmente faço isso.
        Tenho com ela uma cumplicidade estranha, infinita, que faz bem pra minha alma. Só que o que eu ainda não tinha falado com ela, era sobre a vida amorosa dela. E hoje à noite, nessa noite fria, em que ela me pediu somente uma passagem.
        Catei umas moedas, e levei a ela. Iara tomou meu tempo, com duas sacolas cheias de roupas em que a vizinhança deu a ela, e minhas moedas guardadas já no bolso, ela me falou mais uma vez sobre a pantufa do Pateta que dei em outro inverno, sempre me dizendo que ainda a usa.
        E abriu seu coração, me contou sobre o Eder, e sobre o Roberto, o ex namorado e o atual namorado, é uma senhora de idade avançada, ‘de rua’ como muitos que olham pra ela podem falar dela. Com dois filhos de 12 anos, que segundo ela mesma vão a escola.
        E que tem um namorado e um ex namorado, sabe o que é amor, o que é sofrer por amor, e o que é ser iludida. Hoje Iara está apaixonada pelo Roberto. E espero do fundo do coração que ele cuide da minha amiga.

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